sábado, 30 de agosto de 2008

Dos "Cadernos de Poesia": Mães da Invenção



"What kind of girl do you think we are?"

FRANK ZAPPA


Duas moças nuas sobre as dunas
podem até ver estrelas de coral,
podem seguir OVNIS pelo céu...
Duas moças nuas sobre as dunas,
com algum direito a ridículo e drama,
cada uma, pedra que impede
a outra de subir à tona...mas
quem salvaria uma bruxa que se afoga?
Detalhes no desenho da nave-mãe,
grãos de areia na Engrenagem,
moças e dunas têm a cor da Lua.Mas
quem salvaria duas bruxas que se afogam?


Words by Lívia Soares
Image: Painting by Susan Jamison

Da Série "Glimpses of Nirvana": L'AMITIÉ (1965)




Françoise Hardy, The Tiny Goddess, mostrando aos mortais que a eternidade cabe numa canção de dois minutos e dezenove segundos de "duração".

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Dos "Cadernos de Poesia": La Vida Es Un Milagro, Por Supuesto



A vida deve continuar
como aquela luz que não se esvai
como aquele show que jamais findasse
a vida deve, sim, continuar
até se confundirem o vivido e o sonhado -
os livros apenas escritos
e a biblioteca dos sonhos:
eu poderia jurar que estavas lá -
cerrando um pouco os olhos, eu
te traria de volta; mas hoje
as estrelas estão nervosas,
mal cabem na pele da noite
imantada por páginas sem poesia;
e eu desejo apenas voltar para casa,
para minha casa às margens da alegria.


Words by Lívia Soares
Image: collage by Alexis Anne Mackenzie



sábado, 2 de agosto de 2008

Frase do Mês



"TOUTE VUE DES CHOSES QUI N'EST PAS ÉTRANGE EST FAUSSE"

PAUL VALÉRY


Photo by Maysa de Albuquerque

Da Série "Glimpses of Nirvana": I GOT YOU BABE (1973)





David Bowie e Marianne Faithfull em estado de graça: quero compartilhar este momento com vocês, queridos e queridas. Estou de volta. May God bless you all.

sábado, 19 de julho de 2008

Frase do Mês




"I HAVE BEEN TO HELL AND BACK;

AND LET ME TELL YOU, IT WAS WONDERFUL"

LOUISE BOURGEOIS
Image by Dan Hillier

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Dos "Cadernos de Poesia": Sobre a Arte de Molhar os Pés


Também eu, de vez em quando, aprecio estar viva.
Ao pé do mar, apraz-me olhar de longe os sentimentos,
perguntando-me se são meus. Imaginando que
de fato me pertencem esses rastros de uma suposta
humanidade. Apraz-me constatar que o verão
não basta, que os seus restos me perseguem, fossilizados,
material de construção. Mas só pensar "isto me apraz"
já me derruba. Não era para haver uma distância?
A varanda deveria ter ancorado lá, nos dias de verão.
Era então possível vislumbrar os sentimentos ao longe,
boiando, à deriva - lambidos, desgastados, polidos
pelas ondas, engastados no verde móvel ululante,
pequenas jóias. Por obra e graça dos ventos,
esse tesouro ia então crestando ao sol, dourando
a espuma fria, servindo à vezes de pasto às fêmeas
de tubarão. Seu bem mais precioso era a chave
de um antigo poder - arrastar-me de novo às profundezas.
Lá, naquele abismo submarino, teu ossário resplandecia,
trêmulo de algas, sussurrando, à minha espera. Como antes.
Mas então me faltou o ar - defeito de fabricação -
e voltei mais cedo. Ou tarde demais. Agora me falta
o mar. Os sentimentos me machucam os pés
na areia dourada, olham-me de longe os restos de
um naufrágio. É hora de trabalhar. Apraz-me, serenamente,
esse ofício que um dia me escolheu.
Words by Lívia Soares
Painting by David Inshaw