Video by Jean-Baptiste Mondino
domingo, 14 de dezembro de 2008
domingo, 7 de dezembro de 2008
Dos "Cadernos de Poesia": Fauna Abyssalis, Extended Version

Egresso de algum naufrágio, trouxeram
de volta à praia um homem - quase afogado.
De uma quase morte para esta semivida.
Silêncio em volta dele, qual muralha
líquida. O riso dos salvadores, nervoso,
cheio de farpas, na tarde clara.
Por causa do ex-náufrago, afastou-se
o fantasma do tédio. Pescadores de homens,
cada um tem hoje uma história
para contar em casa - onde são heróis.
O recém-salvo salvou seu dia. E agradece.
Embora só consiga olhar detidamente,
perdidamente, o mar. Embora só tenha
ouvidos para o que lhe diz a garganta
imensa, devoradora de navios. Embora
tenha o corpo marcado pelas infinitas
vagas que esculpiram seu destino.
Na imemorial espuma do deus,
na garganta multiforme do deus,
ficou sua alma aprisionada, transmutada
em lâmina, em gema, em cristais que
cantam, toda vez que ele lembra.
Words by Livia Soares
Image : Painting by Du Xinjian (somewhat modified)
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Dos "Cadernos de Poesia": La Dame Est Bien Dans Sa Peau

Não sei que rumor é esse. E sei muito bem.
É como se um caderno antigo se deixasse folhear pelo vento.
É o ruflar das asas do desejo indo ao encontro da memória,
essa distração que me mantém viva. "Olha", disseste,
"está acontecendo outra vez", disseste ainda, num tom
de invocação e foi o quanto bastou. Nossos poderes
se espreguiçam sob a relva, os plátanos parecem
feitos de âmbar e mel silvestre. Como tudo se renova,
bafejado pelos séculos! De perto, a gente pode vê-las
perdendo as folhas, o tronco se descama - tua voz
recriando a realidade, tua boca exalando as sílabas
farfalhantes, a tarde inédita, de repente. Uma lufada
de vento frio demais para uma dama - ou duas. Longe,
tão longe a idade das palavras vãs - mas ninguém te preveniu
sobre a embriaguez do orvalho? Ficamos importantes demais,
era fatal que empalidecêssemos, nós, os últimos reflexos
do rubi no fundo da taça, a cena em sépia que ameaça
eternizar-se. Talvez tenhas dito "amor" alguma vez.
"Rumor" foi a palavra que escolhemos, a voz entrecortada,
os lábios entreabertos, as palavras se partindo em
meio às folhas, perfumes que não soubemos nomear.
No lugar do teu nome, o silêncio voltando a ser
apenas um halo de luz roubada do nosso esplendor.
E sopraste:"É só mais uma estação que se inicia".
Eu não duvido, meu amor, meu doce delírio,
faz de conta que os anos não passaram. Os anos desfolharam
e as páginas dos caderno são mais belas assim, amareladas.
Words By Lívia Soares
Photo by Maysa de Albuquerque
É como se um caderno antigo se deixasse folhear pelo vento.
É o ruflar das asas do desejo indo ao encontro da memória,
essa distração que me mantém viva. "Olha", disseste,
"está acontecendo outra vez", disseste ainda, num tom
de invocação e foi o quanto bastou. Nossos poderes
se espreguiçam sob a relva, os plátanos parecem
feitos de âmbar e mel silvestre. Como tudo se renova,
bafejado pelos séculos! De perto, a gente pode vê-las
perdendo as folhas, o tronco se descama - tua voz
recriando a realidade, tua boca exalando as sílabas
farfalhantes, a tarde inédita, de repente. Uma lufada
de vento frio demais para uma dama - ou duas. Longe,
tão longe a idade das palavras vãs - mas ninguém te preveniu
sobre a embriaguez do orvalho? Ficamos importantes demais,
era fatal que empalidecêssemos, nós, os últimos reflexos
do rubi no fundo da taça, a cena em sépia que ameaça
eternizar-se. Talvez tenhas dito "amor" alguma vez.
"Rumor" foi a palavra que escolhemos, a voz entrecortada,
os lábios entreabertos, as palavras se partindo em
meio às folhas, perfumes que não soubemos nomear.
No lugar do teu nome, o silêncio voltando a ser
apenas um halo de luz roubada do nosso esplendor.
E sopraste:"É só mais uma estação que se inicia".
Eu não duvido, meu amor, meu doce delírio,
faz de conta que os anos não passaram. Os anos desfolharam
e as páginas dos caderno são mais belas assim, amareladas.
Words By Lívia Soares
Photo by Maysa de Albuquerque
Frase do Mês (pela passagem do Dia dos Mortos)
"ESTE MUNDO É INCONCLUSO; ALÉM,
HÁ CONTINUAÇÃO, INVISÍVEL COMO A MÚSICA,
EVIDENTE COMO O SOM"
EMILY DICKINSON
Video: "Clothes of Sand", a song by Nick Drake
with some irish graves by Offpix
HÁ CONTINUAÇÃO, INVISÍVEL COMO A MÚSICA,
EVIDENTE COMO O SOM"
EMILY DICKINSON
Video: "Clothes of Sand", a song by Nick Drake
with some irish graves by Offpix
sábado, 25 de outubro de 2008
Dos "Cadernos de Poesia": O Mundo Sem Elas

Falemos de nossos blogs, falemos sempre.
Há metafísica bastante num blog. Garrafa
ao mar, cada uma em sua ilha de edição,
cada qual mais ocupada em fabricar
o duplo angélico de si mesma: quanta sutileza
nos jogos de luz e sombra... em que pensava ela
ao escolher tal ângulo? Que feliz escolha
de palavras e silêncios...em que pensava ela
ao escrever tal verso? E assim seguimos,
passando ao largo de nossos mares, os minutos
breves demais para conter as ilhas na corrente,
os dias retesando (em vão?) o arco da promessa -
e o paradoxo que nos faz mais belas.
Words by Lívia Soares
Photo by Victor López Ruiz (slightly modified)
Frase do Mês
"'AND WHAT IS THE USE OF A BOOK', THOUGHT ALICE,
'WITHOUT PICTURES OR CONVERSATIONS?'"
LEWIS CARROLL: ALICE IN WONDERLAND
Vídeo: "Alice Remix" by Faggottron
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