sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Dos "Cadernos de Poesia": Para Retocar uma Estátua



Tarde em sol maior, cigarras
vertem ouro líquido em meus ouvidos,
escaravelho se traveste em jóia rara,
aranha - sem querer - prende o arco-íris em sua teia,
só para te lembrares do inferno:
sob a palidez da tua pele, vibra
um inferno tão denso que, para vê-lo,
deve-se fechar bem os olhos.
Ouve-se, então, o interior de uma concha
onde cabe inteiro o mar. E assim
eu arremeto em ondas contra o teu silêncio.
Esperar é uma erosão a roer os milênios
uma vez e outra vez e outra mais,
lamber a dureza dos picos escarpados,
lamber o azul aéreo dos dias,
até transformar teus ossos em espuma,
até me transformar em teu destino.

Words by Lívia Soares

Image: "Venus", sculpture by Praxiteles (detail)

Um comentário:

CH disse...

Olá, minha cara amiga e poetisa;
Estou gostando de ver o descortinar do primeiro poema por aqui, belo, suntuoso, cheio de uma imensidão que bem espelham o mar, as escarpas e o subreptício inferno, esta espécie de brasa adormecida que todo poeta carrega dentro de sim.
Muito bom...muito!
Ah, cuidei de espalhar a notícia, ainda que ao seu alvedrio. Sonja já sabe :]
Aguarde, pois, novas!
Abraço forte do
Carlos