sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Dos "Cadernos de Poesia": Avec Tout Mon Enchantment Pour Les Humanoids



Naquele dia, o mar inundou de sal os bosques.
Uma sereia ficou presa pelos cabelos.
Semanas depois, quando o mar arrefeceu,
dizia-se, a sereia ainda vivia. Com sua vida
inventada, seus cabelos esverdeados,
com a respiração nutrida pelas almas
de mil árvores mortas, a sereia ainda vivia.
No limbo subaquático que já fora um bosque,
depois, o fundo do mar e depois,
só Deus sabe o que será, a sereia regia
um coro de vozes abafadas, semidespertas,
engasgadas com uma teia de algas levemente
apodrecidas. Esta é a canção que roubou
e tem roubado o sono da nossa aldeia.
Alguns de nós ainda compõem versos
com o que restou da insônia. Os outros
já nem se indagam mais o que é feito
do nosso antigo saber. Mas vivemos disso.


Words by Lívia Soares
Image by Maggie Taylor

10 comentários:

Benó disse...

Gostei de ler e reler.

Desejo um óptimo fim de semana.

O nosso Verão já se foi e o Outono chegou para levar consigo todas as folhas que conseguir arrancar das nossas árvores.

Seja Feliz!

mdsol disse...

Como sempre um nível de sofisticação que enche quem aqui passa! As palavras densas mas claras e a imagem que reforça o discurso!
:))

Mésmero disse...

Continue cantando.

Graça Pires disse...

Poema com magia.
Um beijo.

Vieira Calado disse...

Texto de profundas inflecções.
Gostei.
Obrigado pelas palavras acerca do poema que coloquei no blog lagospt.

Van disse...

Querida,
que bom que está de volta! E com esse belo texto ainda. Texto de imagens lindas e exóticas. Um mergulho denso nas palavras. Lindo!
Beijucas

Ana Isabel disse...

...ando em busca de tempo perdido...mas não é fácil!
Tenho de voltar ao hálito e ao voo em breve...mas é lindo este seu poema...e de facto..."Alguns de nós ainda compõem versos
com o que restou da insônia."...para o bem e para o mal!
abraço

Tania disse...

Deste lado são tempos de guardar silêncio, mas que bom é saber que você regressou, voltar a ler os seus poemas sempre tecidos com tanta delicadeza, com palavras que desenham imagens e surpresas.

E que bom é ter a sua companhia, querida Livia. Obrigada pelas palavras carinhosas.

Um abraço enorme.

Analuka disse...

Quando findarem os tons de sonhos e fios de esperança dentro de nós, morrerremos: só podemos viver enquanto esta chama da vontade vital permanecer mais ou menos cintilante em nossas almas... E o mundo precisa de mais sonho, mais amor, mais arte! Abraços alados, caríssima.

rogerio santos disse...

Lívia...
Seja benvinda sempre na minha página...
Adorei esse teu poema tão cheio de significados...
Poema de Beira Mar, com vento, sal e sol.
E insônia de quem faz olhar estrelas...
Um beijão e muito prazer !
Rogerio Santos