domingo, 21 de setembro de 2008

Dos "Cadernos de Poesia": Michelangelo e Seus Irmãos



O amor é um belo rapaz
com os dentes estragados.
A beleza é uma dama impassível
a quem faltam os braços.
A vitória decapitada abre
as asas num convite à viagem.
Os deuses são apenas estátuas
gastas; as musas foram descartadas;
as ninfas estão fartas. E no entanto
os frios seres de pedra e bronze
e madeira e pano e pigmento
possuem num dedo minimo
(que às vezes falta) mais humanidade
que a espécie humana (intacta).
E os mortos que moldaram esses seres
possuem uma Voz que ainda se eleva
e a musculatura exata das estátuas
rumoreja; e as fontes imemoriais projetam
seus gêiseres; e os vitrais mastigam
lentamente a luz do sol, dizendo
frases que ficam pairando no ar
das alturas. E la nave va, apesar
de tudo, a Terra se move,
com os vermes roendo seu cerne,
com mortos grandes demais para
tentar salvá-la: o comando à deriva,
os passageiros de olhos vendados,
enquanto as ruínas falam mais alto.


Words by Lívia Soares
Image: Photo by Tim Walker


8 comentários:

victor lopez ruiz disse...

Muchas gracias Livia por tus halagos y por la sensibilidad artistica y personal que posees, tu si tienes talento y tienes mucho que decir y enseñarnos a todos, lastima que no domino mucho tu idioma y no capto a veces el sentido de lo que publicas, la mayoria de veces solo el literal y se que hay muchos mensajes ocultos aunque no escondidos en lo que escribes, seguiremos en contacto para compartir y concebir pensamientos.

Un fuerte abrazo

Victor

Graça Pires disse...

"E no entanto
os frios seres de pedra e bronze
e madeira e pano e pigmento
possuem num dedo minimo
(que às vezes falta) mais humanidade
que a espécie humana (intacta)."
Concordo em absoluto. Gostei do poema. Um beijo.

Mésmero disse...

Nossa, Lívia, que real seu ponto de vista, e bem agressivo.

Gostei.

Vieira Calado disse...

Cantarei, cantarás, cantaremos... até que a voz nos doa!
Bjs

mdsol disse...

Q. Lívia:

"...
enquanto as ruínas falam mais alto." Esta lucidez do seu poema não pode ser de falta de esperança. Mas, isso mesmo, lucidez do esclarecimento...
:)))

Tinta Azul disse...

Querida Lívia
Gosto mesmo da sua escrita.
Um prazer lê-la. límpidas as palavras.
Bjs

Lord of Erewhon disse...

Belo poema.

Analuka disse...

Algo na alma pulsa: algo da alma do artista sobrevive em sua obra e produto, algo de seus sonhos e aspirações, de seu sôpro e energia vital... Sigamos cultivando as sementes em nossos recônditos, desejos, pensamentos, por mais que o mundo nos pareça ressecado ou perdido. As flores ainda desabrocham na primavera! Beijos alados e luz.