segunda-feira, 23 de março de 2009

Dos "Cadernos de Prosa" : O Mundo Por Trás das Coisas



1 - O sono, por exemplo: trata-se de um grande mistério cotidiano.
Todos os dias, mais ou menos à mesma hora, presenciamos as coisas todas irem ficando cada vez mais longe, até as mais importantes, aquelas fundamentais, enquanto nosso corpo vai cedendo a uma espécie de delicioso torpor. Na gigantesca retorta do nosso cérebro, até os nossos pensamentos - representações de coisas - também são pouco a pouco diluídos e amalgamados, acabando por se rarefazer numa espécie de fluido espectral, extenso e inabarcável feito um mar. Submersos nessas águas primordiais, vagamos junto com uma infinidade de fragmentos de coisas fora do lugar, nós nesse momento sendo apenas um fragmento a mais. Abismados e esmagados pela súbita leveza de tudo, estamos sonhando - o mundo desperto tem, então, a mesma relevância que teriam os restos de um antigo naufrágio. Dizem os cientistas que esse momento de abandono é um modo de escapar da loucura, além de ser bom para cicatrizar nossas feridas - as da carne e as da alma. Mas nós somos um tanto mais ambiciosos.
Sonhando, visitamos a alcova de uma certa beleza adormecida. Eis aí um mistério engastado em outro, de um modo que nenhum joalheiro desperto poderia fazer com tanto engenho - o que, obviamente, não impede ninguém de tentar, sendo esse, a nosso ver, o modo como nasce uma grande parte das jóias que há no mundo desperto. E que nos faz indagar : com que sonha uma beleza adormecida? Fazemos essa pergunta sem nenhuma esperança de resposta, um pouco por despeito, um pouco para demonstrar que nem a psicanálise nem o feminismo conseguiram estragar inteiramente este mundo.
Mas é preciso ir em frente, impulsionados pela correnteza sutil que nos permite bailar em volta de tudo que não compreendemos, visitando as cidades que foram apenas imaginadas e buscadas - jamais palmilhadas. E são esses não-lugares que afloram, em certos momentos, quando vagamos, acordados, pelas ruas das cidades que construímos. É por causa dessas cidades sonhadas que enfrentamos a solidez do mundo desperto. Para que elas tenham janelas dando para uma alcova que receba o espectro cansado, inclinado sobre o leito da beleza adormecida.
E estremecemos quando a luz adentra, inexorável, expulsando o sono - incitando-nos a viver, viver, viver.

Words by Livia Soares
Image: a painting by Jared Joslin, somewhat modified

13 comentários:

Benó disse...

Lindas palavras que nos fazem pairar entre o sonho e a realidade da vida que nos desperta.
Um abraço deste lado de cá.

Mésmero disse...

Que ato obrigatório é viver.

Tania disse...

Querida Lívia,

Gosto muito de como tece as palavras, tem uma medida exata. A crônica é linda, com um final delicioso (desses trechos que quando encontramos, deixamos marcados e o guardamos, para poder regressar outras vezes...).

E obrigada pela saudade. Assim que possível, regressarei.

Um abraço enorme.

adelaide amorim disse...

Que bonita crônica, Lívia. Lembrou-me um pouco as Cidades Invisíveis de Calvino.
Um beijo para você.

jorge disse...

Certamente um dos mais belos textos que lí em seu Blog.
Grato,

Jorge Elias

Graça Pires disse...

Um texto sobre o sono. Eu que adoro dormir bem... Gostei imenso.
Um beijo.

Tinta Azul disse...

Li, mas preciso ler com a atenção que as tuas palavras sempre me merecem.
Por isso deixo um beijo e quando estiver com mais tempo volto para ler como deve ser.

:)

Vieira Calado disse...

O pior é quando sonhamos de olhos abertos, numa realidade virtual.

Bjs

mdsol disse...

Lívia
Como escreve bem! Embalei-me nas palavras
:))

Analuka disse...

Querida! Tomei a liberdade de publicar um fragmento de teus escritos deliciosos e delicados lá em meu blog!... Se houver algum problema, avise-me... mas te digo que é uma honra, um prazer, partilhar letras tão bem tecidas com outros leitores e espaços! Abraço azul.

Tinta Azul disse...

Querida Lívia,
voltei para reler com atenção o teu belo texto.

Deixo-te um beijo meu
e Pelo sonho é que vamos
de Sebastião da Gama.


Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
o que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

-Partimos. Vamos. Somos.

José Boldt disse...

“Identifico plenamente com
o seu olhar.
Até me dá vontade de
começar a fazer fotografias por aí...”

Que mais pode querer um simples fotografo como eu depois destas palavras que a Livia teve a amabilidade de escrever ?

Eu vou continuar a fazer por merecer este seu carinho, e quem sabe, um dia destes a Livia pegue numa máquina fotográfica.
Vai ver como é muitíssimo mais difícil o que a Livia faz, a escrita com uma caneta.


Com amizade
zé boldt

fred disse...

Ótimo texto.
Belo blog.