segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Dos "Cadernos de Poesia": Cariátide sob a Chuva


"O amor é sempre verdadeiro, o mundo é que pisa em falso", tu me dizes, compenetrada, compondo - sem querer - meu epitáfio. Nuvens e areia se precipitam sobre nós, em gotas que pesam e ferem. Nós corremos na tarde cinza, fustigadas por areia e vento, machucando os pés no brilho cambiante de um dia que se finda; "É quase hora de jantar", dizes, quando adentramos a varanda de uma casa ao pé do mar, aquela mesma casa cuja viga mestra é o teu corpo e cujo alento é a tua alma. "E acima de tudo, eu quero que fiques", dizes ainda, enquanto as vozes distantes se aproximam e nós nos incorporamos naturalmente à companhia daqueles que te amam, como se tempestades elétricas não irrompessem a cada instante, na sala, na cozinha, em qualquer lugar, só porque o teu hálito existe, só porque existe o teu perfil na tarde cinza. Com a voz sumida, as chaves de um reino nas mãos suadas, eu pergunto ainda, antes do rapto: "Acima do desejo ou da necessidade?"
Words by Lívia Soares
Painting by Christopher Mir

3 comentários:

thaís disse...

lívia,
o que dizer...é lindo.
palavras num colar delicado, assim contas...
mas é uma outra que te anima,
inspira
e ti porta via.
então te digo, com todo o rubro:
é brutto, bruttissimo!
aaiii,
thaís doendo.

livia soares disse...

Oi, Thaís...
Alegra-me que vc tenha lido e apreciado a postagem, mas devo esclarecer uma coisa: o que tentei (e espero ter conseguido) fazer foi um pequeno poema em prosa à maneira de Charles Baudelaire, mas com algum elemento lírico que evocasse também a minha leitura de Safo. Desse modo, a voz da personagem-narradora coincide com a do "eu" lírico, mas nenhuma das duas deve ser confundida com a voz da autora. Na minha concepção, o poeta não encontra "inspiração" numa "pessoa", mas na busca de um diálogo elaborado com outras poéticas.
Um abraço.

Ch disse...

Minha cara;
Apreciei por demais a novidade do poema em prosa. Nem bem se iniciou nela e já parece caminhar com passos resolutos.
Interessante notar que o cinza a tudo envolve. O mesmo cinza que - já aqui seguindo a imaginação que se insinua - parece dar matiz a certas vesperais.Em tudo o que li vi beleza e, acima de tudo, qualidade!
Abraço do
Carlos