segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Da série "A Cinemateca de Babel": PIQUENIQUE NA MONTANHA MISTERIOSA






Para a crítica especializada e o público em geral, este é o belo e perturbador filme com que, em 1975, o diretor Peter Weir chamou a atenção do mundo para o cinema feito na Austrália. Para três ou quatro gerações de cinéfilos, é um objeto de culto. Gabou-se muito a habilidade com que, nele, Weir retrata o confronto entre os mistérios de uma natureza exuberante e a tradição inglesa transplantada para o continente australiano. Para além disso, penso que aqui se trata de uma obra-prima capaz de aproximar o cinema da poesia (sim, isso existe, embora seja raro). A trama é aparentemente simples, quase inexistente. No Dia dos Namorados (St. Valentine's Day) de 1900, um grupo de alunas de um internato para moças sai para um piquenique em Hanging Rock, com duas de suas professoras. Cinco (quatro alunas e uma professora) se desgarrarão do grupo, contrariando as ordens expressas da diretora da escola, Mrs. Appleyard (Rachel Roberts), para explorar os caminhos próximos. Três delas nunca mais serão vistas e duas voltarão em crise histérica. O personagem que conduz o fio dos eventos é Miranda (Anne Lambert), uma das alunas do Colégio Appleyard, adolescente cuja beleza etérea só encontra paralelo na sua bondade e na graça natural com que ela exerce a liderança sobre as outras. Todos são, de algum modo, afetados por ela. Para sua companheira de quarto, Sara (Margaret Nelson), Miranda é, camonianamente, "a coisa amada", com tudo que isso implica; para Mademoiselle de Portiers (Helen Morse), a professora de francês, Miranda é um anjo egresso de uma tela de Boticelli; em Michael (Dominic Guard), o jovem aristocrata que a vê apenas uma vez, cruzando um riacho a caminho de Hanging Rock, Miranda causa uma impressão tão forte que ele passa a segui-la, arriscando a sanidade e a vida pelas veredas da montanha... a própria câmera, ao enquadrá-la, ao seguir-lhe os movimentos, tem uma solenidade que aponta para o sublime. Miranda é primeiro rosto que vemos na tela; é também o último, fechando a narrativa, ambos em close-ups magníficos, como se a intenção fosse eternizá-la em nossa memória. Todos os olhares são atraídos para ela, não para desvendar um mistério, mas porque ela encarna o mistério. Ante a visão daquela beldade clássica em trajes vitorianos, caminhando montanha acima com a graça olímpica de uma divindade, emoldurada pelos ventos que uivam em uníssono com a flauta de Pan soprada por Gheorghe Zamfir, a gente pode pensar: "É uma deusa pagã, de volta ao lar..."; ou deixar-se embriagar pela beleza e não pensar em nada; ou sentir mil outras coisas que nunca ocorreram a ninguém. Para os que ficam mais abaixo, a vida parece exilada do que tinha de mais precioso. A dor de Sara, por exemplo, é avassaladora e resignada, no melhor estilo trágico-romântico; as feições do jovem Michael aparecem, de uma hora para outra, vincadas por traços de melancolia e perplexidade (então é assim, para amar e perder basta um dia, um olhar, um instante...); os corpos de Miranda, Marion (Jane Vallis) e Miss McCraw (Vivean Gray) jamais serão encontrados. Para aqueles que ficam (o espectador, inclusive) tudo o que resta são fragmentos de lembranças que se esgarçam em detalhes sutis, pequenas senhas de inquietude que a narrativa de Peter Weir espalha e que se vão cravando n'alma feito farpas: por que os deuses demoram tanto a visitar a Terra? Por que a beleza há de custar sempre tão caro? E se...

(Piquenique na Montanha Misteriosa/Picnic at Hanging Rock. Austrália, 1975. Produzido por Patricia Lovell, McElroy & McElroy e South Australian Film Corporation. Duração: 115 minutos. Direção de Peter Weir. Roteiro de Cliff Green baseado na novela homônima de Joan Lindsay. Trilha sonora de Bruce Smeaton e Gheorghe Zamfir. Com Rachel Roberts, Helen Morse, Dominic Guard, Anne Lambert, Margaret Nelson e outros. Disponível em DVD no Brasil pela Editora NBO (cópia da Criterion Collection).

4 comentários:

Edna B. disse...

Cara Amiga
Li com muito cuidado e atenção sua bela crítica e fiquei tentada em locar ou até mesmo adquirir o belo filme aqui relatado, gostei muito deu para sentir os detalhes, parabéns Lívia, estive ainda ontem a noite me deliciando com o "Sétimo Selo" filme envolvente do grande Bergmam,e ainda assisti ao "O desespero de Veronika Voss" de Fassbinder, que muito bem retratou as mazelas qua a dependência em morfina causou a sofrida e decadente atriz... ahh tudo isso graças as dicas do querido amigo Ch, que sempre me atenta ao melhor do cinema, música, livros...e agora aqui com vc.
Grata Lívia, abraço grande
estou adorando!

Ch disse...

Cara Lívia;
Tenho por Peter Weir uma admiração que não é de hoje, mas que já vem de clássicos como Gallipoli [1981], muito embora comece a reconhecer a necessidade - antes tarde do que nunca - de voltar os olhos a Piquenique na Montanha Misteriosa.
Sua crítica praticamente nos leva para dentro do filme, dos dramas vividos por seus personagens. À parte da tragédia que é o desaparecimento de duas alunas e uma professora, a idéia que de mim não se afasta é a de que tenham as moças se "encantado", conclusão que entendo tão poética quanto perfeita.
Nossas conversas a respeito deste filme tem me posto sal na moleira. Aguardo o empréstimo, heim.
A postagem ficou ótima.
Abraço do
Carlos

JuanBM disse...

Hola Livia

No conocía la película. Lo cierto es que no tengo mucho tiempo para el cine, pero tu comentario ha incitado mi curiosidad e intentaré buscarla.

Un abrazo

Analuka disse...

Caríssima, tua visita, com o presente de palavras tão delicadas, alegrou-me, nesta tarde de outubro, por ajudar a manter a crença de que "nada é vão", ou, em outras palavras, nada do que fazemos com amor é em vão: as sementes vão e viajam com o vento, levando suas mágicas, suas potências e cores!... Venho agradecer, conhecer teu jardim, e dizer que voltarei muitas vezes, para apreciar teus escritos. Comecei por este comentário sobre o filme, que, aliás, conseguiu despertar minha curiosidade! Abraços alados.